Por que "torrente de impropérios"?

Briga no beco - Adélia Prado

O nome do blog faz parte de um verso do poema "Briga no beco", de Adélia Prado. Clique no post e leia o poema completo. Briga no b...

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

O beijo da mendiga - Eugênio Bucci

Anoitecia em Belo Horizonte, era domingo e eu dobrava uma esquina do Palácio das Artes. Ar de bobo, saco de pipoca na mão, eu gozava férias. Foi então que eu vi. Assim, de repente. Sob o recuo de um edifício pálido, sujo, um mendigo deitado de barriga pra cima recebia um beijo da namorada. Também mendiga. Ela estava à esquerda do companheiro. Realizava um certo esforço para alcançar os lábios dele. Deitada meio de lado, apoiava-se num dos cotovelos, o direito, e com a mão esquerda segurava o queixo do homem. Este não dava sinais de reação - ao menos para mim, que passava olhando a cena sem querer que me vissem olhando a cena. Ele ficava imóvel, silente como um bêbado. Como um cadáver. [...] A mão esquerda da mendiga poderia estar exercendo certa pressão, quem sabe procurasse impedir que a presa lhe escapasse. Ou não: aquela mão era pura carícia sobre o rosto em repouso. Não tive tempo de mirada suficiente para tirar uma conclusão. Tive apenas o tempo de me espantar. E, depois, o tempo de me espantar com o meu espanto: ora, então eu achava que mendigos não amam?

Achar que mendigos não amam, achar sem querer achar, achar sem parar para pensar que é isso mesmo que a gente acha, bem, isso é um sintoma da nossa doença. E doença que nós temos é a de desumanizar os mendigos. ''Nós quem, cara pálida?'', há de perguntar o leitor, tomado de indignação. Ao que respondo: nós, nós mesmos, os que ainda comemos três vezes ao dia (desde que o preço não seja em dólar), os que temos dentes para mastigar e algum resto de consciência moral (vaidosa) para sentir culpa pelo excesso de garfadas. Acredito que nós, todos nós, eu que escrevo, você que lê e os nossos cúmplices de classe, todos desenvolvemos esse ato reflexo de desumanizar os semelhantes. Desumanizá-los se tornou uma operação mental inconsciente para a nossa sobreviência moral. Só assim é possível conviver com a tragédia que nos cerca. ''Eles são diferentes'', a gente pensa, sem pensar que pensa. [...]

Até o século 19, a justificativa moral (branca) para a escravidão consistia em construir teorias que atribuíam ao escravo (negro) uma outra condição diante da natureza e diante de Deus. Escravo não era gente e, assim sendo, a escravidão não era crime. Fácil, não? De posse dessa ideia tranquilizadora, dessa autorização ética adornada de fundamentações teológicas um tanto barrocas, o pelourinho imperava. Agora, quando nos acreditamos eticamente mais ''evoluídos'' que os nossos antepassados escravocratas, já não suportaríamos conviver com a escravidão. Claro, claro, somos todos humanistíssimos, embora tiremos de letra a oceânica pobreza à nossa volta. Já não pensamos que a escravidão pode ser justificada porque alguém é teológica ou ideologicamente declarado um não-igual, mas acreditamos, sem admitir que acreditamos, que se alguém se encontra jogado na sarjeta, no pior abandono, amargando um cotidiano de cachorro de rua, esse alguém no fundo no fundo não é igual a nós. Não pode ser. Talvez tenha as mesmas necessidades biológicas, mas certamente não padece das mesmas carências, das mesmas aflições [...].

É igual no corpo, vá lá, mas não é igual na alma. Mendigos não são gente e, assim sendo, convivemos com a mendicância como quem convive com... bem, como nossos antepassados conviviam com a escravidão. E porque acreditamos que mendigos não amam, nenhum de nós é capaz de amá-los.

1º de agosto de 2002.

BUCCI, Eugênio. Do B: crônicas críticas para o caderno B do Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2003. p. 245-247.

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