Por que "torrente de impropérios"?

Briga no beco - Adélia Prado

O nome do blog faz parte de um verso do poema "Briga no beco", de Adélia Prado. Clique no post e leia o poema completo. Briga no b...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Um exemplo - Sírio Possenti

Leitores que comentaram há algumas semanas o texto "Pra mim sê", que tentava explicar esta estrutura lingüística, perguntaram que tipo de professor eu sou. E um disse que não gostaria que eu desse aulas para seu filho.

Não sei onde estudaram, se é que tiveram esta sorte (talvez eles achem que estudar é ruim, porque gostam de sua listinha de certezas, aquelas coisas que às vezes se aprendem até a quinta série). Comentários assim sempre me fazem perguntar o que será que eles acham que se estuda em um curso de letras de uma universidade como a Unicamp. Será que imaginam que damos aulas de regência e concordância, de uso de acentos e de maiúsculas? Isso é mais ou menos como supor que, no curso de matemática de uma universidade, os alunos aprendem tabuada e regra de três. E que os de biologia estudam os nomes dos ossos e a localização do baço. E que os de computação aprendem a ligar o micro na tomada e a espiar "melhor" no youtube.

Ora, o que se faz em uma universidade é completamente diferente. Não se ensina "português" na universidade (numa de verdade). Isto é, não se ensina a escrever e a falar "direito" (mas se escreve muito e a verdadeira escrita melhora sempre). Aquilo se aprenda até o colegial e tendo vida social variada numa sociedade que faz esta exigência. Se não a faz, os cidadãos se dispensam de aprender o tal "certo" e ninguém se preocupa com isso. É um simples fato, análogo ao que acontece com o vestuário.

Na universidade, estudam-se questões sobre o português, claro. Afinal, estamos mergulhados nesta língua e o que acontece com ela acontece com muitas outras. Por isso, ela fornece materiais que permitem propor e testar hipóteses sobre a natureza das línguas. Mas achar que só se estuda português é como achar que um curso de física só estuda estrelas brasileiras... ou "matérias" nacionais.

Exemplo de problemas que se tenta resolver, ou, pelo menos compreender, numa universidade: em que direção muda uma língua? Pode-se prever? Com base em quais dados? O que acontece com o espanhol pode ser um indício do que vai acontecer com o português? O fato de que palavras como "calle" tem pelo menos três pronúncias em diversos lugares em que se fala espanhol - kalhe, kaje, kaye - tem alguma coisa a ver com o fato de que palavras como "mulher" têm pelo menos três pronúncias em português - mulher, mulé, muyé? E o fato de que dizemos "prata" onde eles dizem "plata" decorre de um fenômeno histórico que acabou ou ele continua ocorrendo no português em palavras como "framengo" e "atrético"?

Claro, esses são pequenos exemplos. Há outros, muitos outros, tão interessantes quanto esses. Ou não. Muita gente pode achar que isso não é interessante. Essas mesmas pessoas podem achar que pesquisas sobre buracos negros ou sobre placas tectônicas também não interessam. Ou sobre relações entre clima e agricultura. Elas preferem um almanaque, ou o Fantástico, onde se fica sabendo DE TUDO.

Cito um caso: no dia 8/3/2010, minha aula para os calouros de linguística tinha o objetivo mostrar a importância da observação organizada de dados para propor ou defender uma teoria (o que vale para a gramática tanto quanto vale para a física ou para a botânica). Acrescentei o óbvio: que nossos estudos gramaticais são precopernicanos, prebaconianos, medievais em espírito, porque, para saber se os fatos lingüísticos existem, não se ouve, consulta-se um livro. Acha-se que se uma palavra não está no meu (mini)dicionário, ela não existe!

O desafio do dia era posto por um artigo de 1975 (!), de John Martin, chamado "Gênero?". Vou resumir. Dizemos que o português tem masculino e feminino. O principal fundamento dessa firmação (que deveria ser sobre os fatos) é que existe concordância: dizemos "a porta está aberta" (e não "o porta está aberto") e "o telhado está estragado" (e não "a telhado está estragada").

Mas, pergunta ele, porque dizemos "hoje está / faz frio" e não "hoje está / faz fria?) se não há sujeito masculino nessas frases? E por que "está cheio de crianças na praia" e não "está cheia? E por que o predicado fica no masculino quando o sujeito é uma oração ("navegar é preciso" e não "navegar é precisa")? Não me digam, por favor, que "navegar", que é uma oração, é masculina! Nem que há um sujeito masculino "oculto" em "hoje faz frio" ou em "está cheio de crianças".

Depois de questionar esta certeza (que só se tornou certeza porque nenhum professor - e nenhuma gramática - perguntou pelo gênero de uma oração ou de um sujeito "vazio"), Martin propõe uma solução (radical) para esse problema:

a) Não há masculino e feminino em português (!).
b) Há palavras que exigem "concordância" (ela as chama de "marcadas" - aquelas que se relacionam com elas recebem uma marca); as palavras marcadas coincidem com as que qualificamos até então de femininas.
c) Há palavras não marcadas e elas não exigem marcas de concordância.
d) As outras expressões (que não são nomes) não exigem marca de concordância. e) Quando não há nada com que concordar, obviamente não ocorre concordância (portanto, os predicados não são masculinos, são outra coisa).

Aceitar esta explicação, que é bem mais simples e geral, exige mudança do tipo de conhecimento que temos da língua. Teríamos que parar de dizer que "aluno" é uma palavra masculina, por exemplo (tanto não é que "os alunos brasileiros" significa 'alunos e alunas' nascidos por aqui para qualquer falante; "os brasileiros vão votar em 2010" não é uma afirmação que se refere só aos homens). E teríamos que parar de dizer que "aluna" é palavra feminina. Diríamos que "aluno" não é, e que "aluna" é marcada quanto ao gênero.

Este é um pequeno exemplo de uma revolução nos estudos de língua que se pode fazer em uma universidade. Ela é análoga a uma revolução como a feita por Galileu e sua turma na física e na astronomia. Antes, todos achavam que a Terra estava no centro do universo e que o Sol girava em torno dela... (como todo mundo podia VER!).

Sei que a sensação é estranha. Muitas de nossas certezas teriam que ser abandonadas. Teríamos que começar a estudar gramática de novo, de outro lugar, por outros métodos. É que descobriríamos que aquela que estudamos até agora estava errada (pelo menos em muitos casos).
Na semana quem vem comento ouro caso.

***
Acabo de ouvir uma propaganda do governo de S. Paulo sobre linhas de metrô. 12, parece. E o texto conclui: "Isso nunca aconteceu antes". Cheirou a "nunca antes nesse país"...

Sírio Possenti é professor associado do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Por que (não) ensinar gramática na escola, Os humores da língua, Os limites do discurso, Questões para analistas de discurso e Língua na Mídia.


Este texto foi publicado originalmente no portal Terra Magazine, onde Possenti era colunista.

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