Por que "torrente de impropérios"?
Briga no beco - Adélia Prado
O nome do blog faz parte de um verso do poema "Briga no beco", de Adélia Prado. Clique no post e leia o poema completo. Briga no b...
sexta-feira, 16 de maio de 2025
O nascimento de João - Karol Sueto Moreira
As contrações vinham de vinte em vinte minutos. Mamãe acordava com o incômodo, olhava o relógio e voltava a cochilar. Isso por intermináveis duas horas. Até que ela foi acordada por uma mais forte, a única dolorosa. Pensou: "vou acordar o Frank assim que essa contração passar". Só que, quando essa passou, veio imediatamente outra. Eu estava mesmo querendo nascer. Acordamos o Papai, que ligou para o Luizinho. Para aliviar a dor, Mamãe tomou um banho com a água bem quentinha. Entendi que eu já podia sair, porque a água aumentou ainda mais a dilatação.
Quando saiu do banho, veio uma dor forte e diferente, porque Mamãe sentia que eu estava empurrando. Ela gritou o Papai:
– Vai nascer aqui!
Papai tentou acalmá-la. Outra contração e ela já podia encostar na bolsa de líquido amniótico com a mão. Parecia que tentava segurar para eu não pular para fora. Chamou o Papai de novo:
– Está nascendo!
– Não! – ele respondeu. – Você só está sentindo muita dor!
– Está nascendo, olha aqui!
Papai olhou. E depois disse que não caiu porque Deus não quis. Aconselhou mamãe a deitar na cama, mas ela só conseguiu ficar na beiradinha, de forma que, se eu nascesse, cairia no chão. Tio Zé chegou para nos levar para o hospital. Papai, desesperado:
– Zé, você não está entendendo, o menino está nascendo!
Com a calma de sempre, Tio Zé exclamou:
– Mas tá desse jeito, meu filho?
Papai ligou para a ambulância. Os dois estavam lá fora quando veio a penúltima empurrada e minha cabeça saiu. Mamãe gritou para alguém me amparar. Tio Zé veio, arrastando os chinelinhos, e chegou a tempo de me pegar enquanto eu saía, com a última contração. O que fazer? Amarrar o cordão, pensou a mamãe. Tio Zé foi lá procurar uma linha. Achou a caixa de bordado. Olhou a primeira: cor-de-rosa. Não, não vou amarrar o umbigo do João com cor-de-rosa. Olhou a segunda, rosa também. Dizem que foi a terceira, de um vermelho vivo, a linha escolhida. Mamãe nem viu, encantada comigo no colo pela primeira vez.
Laura acordou, Tia Tê chegou, muito barulho e muita bagunça na casa. Eu e Mamãe ainda estávamos ligados pelo cordão, com a placenta lá na barriga. Chegaram também os paramédicos, que fizeram os primeiros exames e nos separaram. Abri os olhos enrolado numa toalha, no colo da Tia Tê. Fomos para o hospital. No portão, Luizinho torcendo as mãos: nem quis entrar em casa, de tão nervoso. Deixamos para trás Laura, tia Tê, nossa casa e a bagunça.
A ambulância andava muito lenta. Na maternidade, uma infinidade de papéis para assinar antes de eu ir para o berçário, de onde só saí com o sol alto. Mamãe fez exames, teve que contar a história mil vezes. Mas estava feliz e se sentindo bem, apesar do cansaço. Papai tremia, desconsolado. Ainda bem que lá estavam também Vovó Lu e Vovó Keka, para dar uma força para ele. Ele ficou ao lado da Mamãe até quase de manhã, quando terminou a curetagem e ela pôde, finalmente, ir para o quarto. E foi ele quem a tirou da maca e colocou no leito do hospital. Depois, quando voltou para casa, um vazio grande não o deixava dormir.
Disseram que eu nasci às duas e quinze da manhã. Dezesseis de maio. Era uma lua cheia. Dia bonito, esse.
quarta-feira, 2 de abril de 2025
A Verdade Sobre o Dia Primeiro de Abril - Luís Fernando Veríssimo
O ano nem sempre foi como nós o conhecemos agora. Por exemplo: no antigo calendário romano, abril era o segundo mês do ano. E na França, até meados do século XVI, abril era o primeiro mês. Como havia o hábito de dar presentes no começo de cada ano, o primeiro dia de abril era, para os franceses da época, o que o Natal é para nós hoje, um dia de alegrias, salvo para quem ganhava meias ou uma água-de-colônia barata. Com a introdução do calendário gregoriano, em 1564, primeiro de janeiro passou a ser o primeiro dia do ano e, portanto, o dia dos presentes. E primeiro de abril passou a ser um falso Natal – o dia de não se ganhar mais nada. Por extensão, o dia de ser iludido. Por extensão, o Dia da Mentira. VOCÊ ACREDITOU NESSA?
Há outra. No hemisfério Norte, onde tudo é o contrário do hemisfério Sul – inclusive, em muitos países, corrupto vai para a cadeia, imagine! –, a primavera está no auge em abril. “Abril” viria, mesmo, do latim Aprills, que viria de Aperire, ou Abrir, pois a primavera é a estação em que os botões se abrem, tanto das flores quanto das roupas, e o pólen está no ar, e as abelhas voam, os camponeses correm atrás das camponesas e, como se não bastasse toda esta confusão, os alérgicos espirram e os pássaros cantam. Um dos primeiros pássaros a cantar a chegada da primavera é o cuco, cuja característica é imitar a voz de outros pássaros, tanto que os assim chamados relógios-cucos não deviam ter este nome, já que o que o passarinho canta quando sai da janelinha nunca é o seu próprio canto, é plágio. O primeiro dia de abril, na Europa, era, portanto, o Dia do Cuco, que saía do seu ninho para espalhar a discórdia, já que ora imitava um pássaro, ora imitava outro. E a todas estas horas as camponesas voavam, as abelhas perseguiam os camponeses pelos campos e os alérgicos floriam e as flores espirravam e os padres mandavam parar essa pouca-vergonha, já! E matem aquele cuco. Primeiro de abril era o Dia do Cuco. O cuco é um pássaro mentiroso. Aliás, até hoje, ninguém, fora alguns parentes mais chegados, sabe como é o canto real de um cuco, já que ele sempre canta como outro. Logo, primeiro de abril ficou como o dia dos mentirosos. ESSA CONVENCEU?
Aqui vai outra. Na verdade tudo vem da Índia, onde desde tempos imemoráveis existe o Festival de Huli, uma festa que dura um mês e em que tudo é ao contrário, tanto que ela começa no dia 30 de abril e termina no dia primeiro, quando as pessoas entram nas suas casas, de costas e começam a se preparar para a festa que já houve. O último dia do Festival de Huli é reservado para o “Vahila”, que em sânscrito quer dizer “Tirar um Sarro”, que é quando as pessoas recebem incumbências absurdas, como – isto já na época do domínio britanico – levantar a saia da estátua da rainha Vitória para ver se a calcinha também era de bronze. Foram, aliás, os ingleses que levaram a tradição do Huli para a Europa, junto com o curry e a malária. Uma destas é a verdadeira origem do primeiro de abril. Mas, claro, isto também pode ser mentira...
VERÍSSIMO, Luís Fernando. As mentiras que os homens contam. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
domingo, 30 de março de 2025
Haicai autobiográfico - Karol Sueto Moreira
Eu
fujo, eu disfarço.
E
a cada ano me alindo
Todo
mês de março.
(22/03/2014)
terça-feira, 4 de março de 2025
Briga no beco - Adélia Prado
Briga no beco - Adélia Prado
Tomavam guaraná e riam, os desavergonhados.
Ataquei-os por trás com mão e palavras
que nunca suspeitei conhecesse.
Voaram três dentes e gritei, esmurrei-os e gritei,
gritei meu urro, a torrente de impropérios.
Ajuntou gente, escureceu o sol,
a poeira adensou como cortina.
Ele me pegava nos braços, nas pernas, na cintura,
sem me reter, peixe-piranha, bicho pior, fêmea-ofendida,
uivava.
Gritei, gritei, gritei, até a cratera exaurir-se.
Quando não pude mais fiquei rígida,
as mãos na garganta dele, nós dois petrificados,
eu sem tocar o chão. Quando abri os olhos,
as mulheres abriam alas, me tocando, me pedindo graças.
Desde então faço milagres.
PRADO, Adélia. Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 1976.
segunda-feira, 6 de março de 2017
Conselhos de George Orwell - Jaime Rubio Hancock
Normalmente se diz que não há regras para escrever bem. Mas não é verdade. Ajuda ter em mãos, por exemplo, as seis normas propostas por George Orwell. Seu filho, Richard Blair, as lembrou em uma entrevista feita por Bernardo Marín e publicada há alguns dias pelo EL PAÍS.
1. Nunca use uma metáfora, comparação ou outra frase feita que esteja acostumado a ver escrita.
2. Nunca use uma palavra longa se pode usar uma curta que signifique o mesmo.
3. Quando possível eliminar uma palavra, sempre elimine.
4. Nunca use a voz passiva quando puder usar a ativa.
5. Nunca use uma expressão estrangeira, una palavra científica ou um termo de jargão se puder pensar em uma palavra equivalente em seu idioma que seja de uso comum.
6. Descumpra qualquer uma dessas regras antes de escrever algo que pareça estúpido.
Orwell as incluiu em um ensaio intitulado "Politics and the English Language" ("A Política e a Língua Inglesa"), publicado em 1946 na revista Horizon. O artigo criticava principalmente a linguagem política, mas seus conselhos podem ser aplicados a qualquer texto. Por exemplo, o The Guardian o citou há alguns anos para criticar como escrevemos na internet. E também pode servir para qualquer idioma, apesar de o ponto 4, o que se refere à voz passiva, ser aplicado com mais frequência no inglês.
Para o autor britânico, essa preocupação com a linguagem não é nem "frívola" nem exclusiva dos escritores profissionais. Quando alguém se livra dos maus hábitos ao escrever, "pode pensar com mais clareza, e pensar com clareza é o primeiro passo para a regeneração da política".
Tópicos imprecisos
Na opinião do autor britânico, são dois os problemas principais de muitos textos: as imagens banais e a falta de precisão. Quando escrevemos temos que deixar que "o significado escolha a palavra, e não ao contrário", afirma. Tem que se fazer um esforço e pensar antes de começar a juntar letras, para evitar assim "as imagens desgastadas ou confusas, todas as frases pré-fabricadas, as repetições desnecessárias e os enganos e imprecisões".
Nos textos que critica se acumulam "metáforas moribundas", que foram tão usadas que perderam seu significado. Pensemos, por exemplo, em "enlouquece as redes sociais". Outro vício habitual, segundo Orwell, é o de usar termos pretensiosos com a intenção de "dar um ar de imparcialidade científica a juízos tendenciosos", além de "palavras que quase carecem de significado".
Por exemplo, termos como democracia, socialismo e liberdade, que normalmente são usados com "significados diferentes que não se podem reconciliar entre si". Não é o mesmo ler informação sobre notícias falsas em um texto do The New York Times e declarações de Donald Trump, que se apropriou dessa expressão, fake news, para classificar todas as manchetes de que não gosta.
Paradoxalmente, outra palavra que não significa o mesmo de acordo com quem a utiliza é "orwelliano", usada por "críticos de todos os lados", como publicou o The New York Times em um artigo que mencionava que esse texto, é, junto com 1984 e A Revolução dos Bichos, um dos mais influentes de Orwell.
Defender o indefensável
Como já apontamos, Orwell se preocupava principalmente em como eram mal escritos os textos políticos, algo que não podemos dizer que tenha mudado muito. Orwell cita exemplos que parecem muito atuais, como falar de "pacificação" quando "se bombardeia povoados indefesos pelo ar" ou de "transferência de população" quando "se despeja milhões de camponeses de suas terras".
"Um orador que usa essa classe de fraseologia tomou distância de si mesmo e se transformou em uma máquina" que tenta "defender o indefensável", escreveu Orwell. O que consegue é que "as mentiras pareçam verdadeiras, e o assassinato, respeitável". Como recorda Steven Pinker em The Sense of Style, essa abstração tão vaga acaba desumanizando.
Quatro perguntas
É fato que escrever mal é fácil: não precisa se preocupar como nos expressamos, basta escolher expressões do catálogo de frases feitas. Mas também leva a que os textos sejam desagradáveis e ineficazes.
Por outro lado, um escritor cuidadoso se fará ao menos quatro perguntas antes de redigir qualquer texto:
- O que quero dizer?
- Quais palavras expressam isso?
- Qual imagem ou expressão deixa mais claro?
- Essa imagem é suficientemente nova para fazer efeito?
E talvez mais duas:
- Posso ser mais breve?
- Disse algo feio que é evitável?
Orwell e a pós-verdade
Os seis conselhos de Orwell para escrever bem são muito conhecidos, mas ultimamente se fala bem mais de outro texto de Orwell: o romance 1984, publicado em 1949, três anos depois de "A Política e a Língua Inglesa". O clássico sempre foi popular (a primeira adaptação cinematográfica foi feita em 1956), mas nos últimos meses foi bastante citado em referência à pós-verdade e às notícias falsas. Um exemplo: esse fragmento que poderia explicar a diferença entre uma mentira e uma pós-verdade.
Aqui, a palavra-chave é preto-branco. Como tantas outras palavras da novilíngua, também esta tem dois sentidos antagônicos. Aplicada a um opositor, significa o hábito de afirmar sem pudor que o preto é branco, contrariando a evidência dos fatos. Aplicada a um membro do Partido, designa a lealdade diligente em afirmar que o preto é branco quando a disciplina do Partido assim exige. Mas significa também a capacidade de acreditar que o preto é branco, e mais ainda, de saber que o preto é branco, e esquecer que alguma vez se tenha pensado o contrário. Isso implica a constante alteração do passado, só possível pelo sistema de pensamento que na verdade abarca todo o resto, e que se designa na novilíngua pela palavra duplipensar.
Razões científicas para ler mais do que lemos - Ignacio Morgado Bernal*
O Brasil tem mais leitores a cada ano. Em 2011, eram 50% da população. Em 2015, eram 56%, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. Contudo, isso também significa que 44% da população não lê. Ainda pior: 30% nunca comprou um livro. Alguns argumentos científicos, em especial da neurociência, podem ajudar a melhorar esses índices.
A leitura é um dos melhores exercícios possíveis para manter o cérebro e as capacidades mentais em forma. Isso é verdade porque a atividade de leitura exige colocar em jogo um importante número de processos mentais, entre os quais se destacam a percepção, a memória e o raciocínio. Quando lemos, ativamos principalmente o hemisfério esquerdo do cérebro, que é o da linguagem e o mais dotado de capacidades analíticas na maioria das pessoas, mas são muitas outras áreas do cérebro de ambos os hemisférios que são ativadas e intervêm no processo. Decodificar as letras, as palavras e as frases e transformá-las em sons mentais requer a ativação de grandes áreas do córtex cerebral. Os córtices occipital e temporal são ativados para ver e reconhecer o valor semântico das palavras, ou seja, o seu significado. O córtex frontal motor é ativado quando evocamos mentalmente os sons das palavras que lemos. As memórias evocadas pela interpretação do que foi lido ativam poderosamente o hipocampo e o lobo temporal medial. As narrativas e os conteúdos sentimentais do texto, seja ele ficcional ou não, ativam a amígdala e outras áreas emocionais do cérebro. O raciocínio sobre o conteúdo e a semântica do que foi lido ativa o córtex pré-frontal e a memória de trabalho, que é a que usamos para resolver problemas, planejar o futuro e tomar decisões. Está provado que a ativação regular dessa parte do cérebro desenvolve não apenas a capacidade de raciocinar, como também, em certa medida, a inteligência das pessoas.
A leitura, em última análise, inunda de atividade o conjunto do cérebro e também reforça as habilidades sociais e a empatia, além de reduzir o nível de estresse do leitor. A esse respeito, devemos destacar o excelente trabalho de revisão do romancista e psicólogo Keith Oatley, da Universidade de Toronto, no Canadá, recentemente publicado na revista científica CellPress, intitulado: Fiction: Simulation of Social Worlds (Ficção: Simulação de Mundos Sociais), que destaca que que a literatura de ficção é a simulação de nós mesmos em interação. Depois de uma rigorosa e elaborada revisão de dados e considerações sobre psicologia cognitiva, Oatley conclui que esse tipo de literatura, sendo uma exploração das mentes alheias, faz com que aquele que lê melhore sua empatia e sua compreensão dos outros, algo de que estamos muito necessitados. Essa conclusão ainda é avalizada por neuroimagens, ou seja, por dados científicos que exploram a atividade cerebral relacionada com esse tipo de emoções. A ficção que inclui personagens e situações complexas pode ter efeitos particularmente benéficos. Assim, e como exemplo, um trabalho recém-publicado mostra que a leitura de Harry Potter pode diminuir os preconceitos dos leitores.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
Existe linguística que não seja social? - Marcos Bagno
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
O beijo da mendiga - Eugênio Bucci
Anoitecia em Belo Horizonte, era domingo e eu dobrava uma esquina do Palácio das Artes. Ar de bobo, saco de pipoca na mão, eu gozava férias. Foi então que eu vi. Assim, de repente. Sob o recuo de um edifício pálido, sujo, um mendigo deitado de barriga pra cima recebia um beijo da namorada. Também mendiga. Ela estava à esquerda do companheiro. Realizava um certo esforço para alcançar os lábios dele. Deitada meio de lado, apoiava-se num dos cotovelos, o direito, e com a mão esquerda segurava o queixo do homem. Este não dava sinais de reação - ao menos para mim, que passava olhando a cena sem querer que me vissem olhando a cena. Ele ficava imóvel, silente como um bêbado. Como um cadáver. [...] A mão esquerda da mendiga poderia estar exercendo certa pressão, quem sabe procurasse impedir que a presa lhe escapasse. Ou não: aquela mão era pura carícia sobre o rosto em repouso. Não tive tempo de mirada suficiente para tirar uma conclusão. Tive apenas o tempo de me espantar. E, depois, o tempo de me espantar com o meu espanto: ora, então eu achava que mendigos não amam?
Achar que mendigos não amam, achar sem querer achar, achar sem parar para pensar que é isso mesmo que a gente acha, bem, isso é um sintoma da nossa doença. E doença que nós temos é a de desumanizar os mendigos. ''Nós quem, cara pálida?'', há de perguntar o leitor, tomado de indignação. Ao que respondo: nós, nós mesmos, os que ainda comemos três vezes ao dia (desde que o preço não seja em dólar), os que temos dentes para mastigar e algum resto de consciência moral (vaidosa) para sentir culpa pelo excesso de garfadas. Acredito que nós, todos nós, eu que escrevo, você que lê e os nossos cúmplices de classe, todos desenvolvemos esse ato reflexo de desumanizar os semelhantes. Desumanizá-los se tornou uma operação mental inconsciente para a nossa sobreviência moral. Só assim é possível conviver com a tragédia que nos cerca. ''Eles são diferentes'', a gente pensa, sem pensar que pensa. [...]
Até o século 19, a justificativa moral (branca) para a escravidão consistia em construir teorias que atribuíam ao escravo (negro) uma outra condição diante da natureza e diante de Deus. Escravo não era gente e, assim sendo, a escravidão não era crime. Fácil, não? De posse dessa ideia tranquilizadora, dessa autorização ética adornada de fundamentações teológicas um tanto barrocas, o pelourinho imperava. Agora, quando nos acreditamos eticamente mais ''evoluídos'' que os nossos antepassados escravocratas, já não suportaríamos conviver com a escravidão. Claro, claro, somos todos humanistíssimos, embora tiremos de letra a oceânica pobreza à nossa volta. Já não pensamos que a escravidão pode ser justificada porque alguém é teológica ou ideologicamente declarado um não-igual, mas acreditamos, sem admitir que acreditamos, que se alguém se encontra jogado na sarjeta, no pior abandono, amargando um cotidiano de cachorro de rua, esse alguém no fundo no fundo não é igual a nós. Não pode ser. Talvez tenha as mesmas necessidades biológicas, mas certamente não padece das mesmas carências, das mesmas aflições [...].
É igual no corpo, vá lá, mas não é igual na alma. Mendigos não são gente e, assim sendo, convivemos com a mendicância como quem convive com... bem, como nossos antepassados conviviam com a escravidão. E porque acreditamos que mendigos não amam, nenhum de nós é capaz de amá-los.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
Duas moedas - Karol Sueto Moreira
Arredores da Praça da Liberdade. Hora do almoço. Um malabarista, pobre e sujo, tenta divertir os motoristas no sinal fechado. Nas mãos, que mal completaram quinze anos, um bastão aceso, que ele gira habilmente. O fogo se funde ao calor do ambiente e parece engoli-lo um pouco a cada rodopio.
Meus filhos olham extasiados para tudo aquilo. Tiro duas moedas da carteira e entrego nas mãozinhas gorduchas, ávidas por darem ao artista um reconhecimento, pobre e sujo, da sua habilidade.
O rapazinho termina o breve espetáculo e caminha entre os carros, passando o chapéu. Diversos motoristas olham, constrangidos, para baixo ou para o sinal que insiste em se manter vermelho.
Meus filhos esticam os braços para chamar a atenção do menino. Ele vem bambolejando, com um sorriso impresso no rosto sujo de fuligem e maquiagem. Recebe as duas moedinha e olha, de relance, para as crianças, que vestem o uniforme da escola.
Como um sábio ancião, o malabarista ergue o dedo indicador e, sem interromper o passo e o sorriso, aconselha: "nunca deixem de estudar!"
Tenho certeza de que, para os pequenos, foi um conselho banal. Mas eu, de repente tão pequena diante de todas as injustiças do mundo, fiquei me perguntando quantas oportunidades foram negadas àquele garoto e tudo o que ele poderia ter sido: seria ele artista? Os olhos das pessoas se desviariam à sua passagem?
Engoli em seco e enxuguei uma lágrima que insistiu em borrar o verde que se acendeu no sinal. Aquelas duas moedas, que não pagavam um café na esquina, me deram uma rica lição na hora do almoço, nos arredores da Praça da Liberdade, naquela véspera de feriado.
quarta-feira, 2 de abril de 2014
Soluções geniais para a escola e a educação - Ana Elisa Ribeiro
Fico encafifada com aquela turma que acha vantagem colocar filho em escola privada. O negócio mesmo é que estamos no mato sem cachorro e sem professor, em qualquer modalidade de educação, cá entre nós. Mas inventaram aí que educação privada é uma beleza e a gente segue acreditando. É tudo questão de fé, não de fato. Mas vamos lá ver as listinhas de resultados de exames isto e aquilo. Seguem valendo como argumento pra dizer que a escola tal é boa e a outra, o contrário. Ah, vá. Veste-se um santo para deixar o outro nuzinho em pelo. E assim vamos caminhando, capengando geral.
Só pra começar - e contrariar -, educação é um lance bem amplo, comprido e estofado. Vem de berço, vem de escola, vem de família, vem de bairro, amigos e inimigos. Educação é a quantidade de vezes que você foi ao cinema e leu um livro, tanto quanto o tanto de xis que você marcou nas provas. Educação é lindo. Acontece até sem querer, mas, querendo, fica bem mais legal. A educação é um direito. Se for a básica então, aquela do fundamental ao médio, aí é que deveria mesmo ser direito. Mas não é. Assim como o transporte público - que é privado -, a educação, no Brasil, é um favor. Um grande favor pelo qual você precisa pagar. E vamos lá.
Dia desses, rolou um episódio que misturava várias coisas controversas na escola do meu filho: crianças, novas tecnologias e banheiros. Um guri, a certa altura do horário escolar, saiu muito ouriçado do banheiro masculino, dizendo que foi flagrado por uma câmera de celular enquanto fazia qualquer coisa necessária em um dos vasos sanitários. Ninguém viu nada direito. Nem a vítima. O piá só dizia ter visto uma mão por cima da porta do cubículo e aquele barulhinho de fotografia. Ou seria filme? E agora? Pra onde vai essa imagem? Mas não dava pra identificar se a mão era de outra criança, de adulto, de homem ou mulher. Só dava pra ficar bem assustado.
A história foi parar no ouvido dos pais do garoto, do diretor geral e da cidade inteira. Havia grupos de pais no Facebook pra discutir - inflamadamente - a questão; havia jornalistas produzindo matérias acusatórias e julgamentosas nos jornais da capital mineira. Havia de tudo. A mãe, compreensivelmente alterada, narrava - inclusive nas redes sociais - o absurdo do episódio e denunciava o diretor por negligência e assemelhados. Parece que, ao procurar o dirigente da escola para dar conta do caso, ele teria dito a ela que "não posso fazer nada". Aí a raiva cresce e aparece. Todo mundo revoltado com o episódio.
Bem, mas de quem era aquela mão? Haveria como descobrir? O que o diretor e a escola realmente poderiam fazer? Como apurar o caso? Seguiu-se a isso uma discussão intensa sobre câmeras de segurança, inclusive nos banheiros; pedofilia; domesticação; proibição de variada natureza. Fartas e engenhosas discussões, inflamadas, apaixonadas, porque todo mundo no mundo é educador, quando a coisa aperta.
Mas o que mais me impressionou mesmo foi uma das soluções geniais para o caso. Geralmente, elas são dadas por um pai ou uma mãe. Geralmente. Sou dessa mesma categoria, então não vou produzir prova contra mim, mas ó, te contar... Uma pulsante e antenada cabeça sugeriu a proibição absoluta da entrada de aparelhos de telefonia móvel dentro da escola, proibição estendida a professores e funcionários - o diretor, também. Cá comigo, no papel de cidadã e professora que sou, senti um engulhozinho de nojo. Como proibir esse dispositivo onipresente na escola? Como operacionalizar isso, minha gente? E como assim eu, professora (não dessa escola, frise-se), seria proibida de entrar lá com meu equipamento pessoal? E outra: logo eu, que estudo e pesquiso letramentos digitais, como poderia me animar com uma ideia dessas? Tanta gente boa estudando formas de transformar o dispositivo em motivo e plataforma de aprendizagem, e a turma ali pensando em fiscais e detectores de metais. Afe!, como dizemos na internet.
Mais um capítulo se seguiu. O lance das câmeras nos corredores parecia ter a dianteira nas preferências das pessoas. Mas a proibição dos telefones ainda pairava. Este país tem mais aparelhos celulares do que pessoas! Olhem aí em algum dado do IBGE ou coisa assim. É verdade, amigos. E a gente ali, considerando uma ideia dessas. Mas a bela imagem que me veio foi bem outra, a de um outro sistema que não funciona: o carcerário. Tanto pela arquitetura quanto pelos moldes, a escola (e aí é qualquer uma, sinto dizer) ia ficar mais próxima ainda de se parecer com um presídio. Isso não é ideia minha não. Leia-se o Michel Foucault pra a gente pensar mais. Mas não é? Daí que eu vi aquela cena de tráfico de celular. Gente jogando aparelho por cima do muro, trazendo dentro do lanche, no bolo, no suco, escondido na vagina. Ai, que genial!
Estão me achando muito sarcástica? Tá pesado. Tá bom, vou maneirar no tom. Mas tem jeito? Que fim teve isso? Bom, outro dia, recebi o bilhete oficial informando sobre a instalação das câmeras. Vá lá. Mas sabem o que me deixou mais chateada (#xatiada, como dizemos na net)? Foi a escola não ter chamado a comunidade pra um papo-cabeça sobre o que faltou ali: ética. Ninguém falou nisso. Não recebi um bilhete chamando pra uma rodada com a moçadinha pra falar desse tipo de situação... dos riscos, da pedofilia, da invasão de privacidade, das fronteiras confusas entre público e privado, sobre desrespeito, aliás, coisa muito mais antiga do que celular e fotografia. Foi disso, pois, que eu senti falta. Senti falta de as pessoas pensarem na humanidade da situação. Quis que o foco saísse das tecnologias e das máquinas, só um pouquinho (mentira, um poucão) e fosse para o real protagonista da questão: as pessoas.
Mas ora, estamos acostumadíssimos com isso, né? É muito mais rápido e fácil comprar e instalar câmeras do que falar de respeito. Muito mais ágil orçar detector de metais do que educar as pessoas, mostrar pra elas que continua existindo certo e errado, sim e não. As coisas não podem estar tão misturadas assim. Mas ó, que tempão seria gasto com isso! Ou ainda pior: as pessoas, mesmo nas escolas, não estão formadas e preparadas para tratar de assuntos espinhosos. Continua sendo mais prático ensinar a decorar e a apertar botão, até pra tirar foto do guri fazendo xixi. Muito mais legal dar equipamento do que qualificar professor. Pra quê, né não?
Assim, mas não vou tirar meu filho da escola não. Nem precisam se dar o trabalho de sugerir isso. Vamos lá, adelante, como diria um amigo meu, doutor estudado. Sabem por quê: porque suspeito de que não adiante nada mudar meu piá de escola. Nadinha. Ainda estamos por descobrir a educação escolar e as novas tecnologias. Talvez, na próxima passagem da caravela. Bom, ou não. A parte que a escola não dá conta de fazer, eu pego e faço em casa. Meu filho, eu garanto, ouve sempre: senta aqui comigo, vamos conversar sobre isso? Talvez não garanta nada. Mas o talvez, por estas bandas, já me parece um benefício.